Enquanto dormimos, trabalhadores noturnos garantem a renovação das matas. Mariposas e morcegos cumprem o papel de polinizadores
21/12/2009 - 09:11
Terra da Gente - Paulo Conte
No mundo dos dinossauros não havia flores. Levou muito tempo para as plantas evoluírem até as primeiras formas de aparelho reprodutor externo. O lento aprimoramento e desenvolvimento de insetos que tinham no néctar a fonte de alimento. Num movimento co-evolutivo, flores e insetos desenvolveram estruturas e formas interativas, como peças de um quebra-cabeças. Assim começou, há 135 milhões de anos, no Cretáceo, a história dos lepidópteros, palavra de origem grega que quer dizer asas com escamas e designa as borboletas e mariposas.
Para quem quer fazer um reconhecimento rápido, as diferenças básicas entre borboletas e mariposas são as seguintes: borboletas pousam com asas fechadas, mariposas com asas abertas. Borboletas têm o abdômen menor e, em geral, a maioria é diurna, enquanto que mariposas são especializadas em vôos noturnos. Existem algumas exceções, de mariposas que voam de dia, caso do esfingídeo (Aellopus titans), um polinizador de hábito diurno. O termo esfingídeo foi criado pelos franceses que achavam que a cabeça destas mariposas se assemelhava a uma esfinge.
“Nem todas as mariposas se alimentam, mas no que se refere às borboletas isso é raro”, explica o biólogo. As mariposas que não se alimentam vivem de nutrientes obtidos na fase em que eram lagartas, pois são desprovidas de aparato bucal – tecnicamente chamado de espirotromba - significativo. O tempo de vida é curto, suficiente apenas para a reprodução. Já as espécies com espirotromba desenvolvida podem ser polinizadoras.
A diferenciação de dietas determina a longevidade do inseto adulto. As borboletas do tipo gema de ovo, comuns no meio urbano, por exemplo, alimentam-se de néctar e têm vida média de 45 dias. Já as chamadas maria-boba, que voam em sombreados de mata, combinam néctar e grãos de pólen dissolvidos na dieta, o que lhes confere uma longevidade de até 9 meses, conforme estudos realizados por Luiz Soledade Otero, doutor em Ciências pela Universidade de Paris e profundo conhecedor de lepidópteros no Brasil.
Mesmo alguém como ele não saberia dizer quantos gêneros de mariposas existem no Brasil. Por que nunca foi feito um inventário abrangente, apenas pequenos levatamentos em áreas restritas. É possível afirmar, no entanto, que, no mundo, 85% dos lepidópteros são mariposas. “Existem muito mais mariposas do que de borboletas. O curioso é que o público vê o contrário, pois a borboleta é diurna. Já a mariposa é noturna, não se vê facilmente e causa aversão. Mas são muito mais numerosas”, garante Soares.
Entre as espécies de mariposas comuns no Brasil está a Thysania agrippina, considerada a maior do mundo em envergadura de asa - a distância relativa entre a ponta de uma asa à outra -, que pode chegar a 25 cm. A maior mariposa conhecida, em todo mundo, em área de asa é a Attacus atlas, que ocorre na Índia. A brasileira Thysania chega a ser confundida com um morcego pelo tamanho, sem, contudo, demonstrar a mesma desenvoltura. Pertencente à família Noctuidae, popularmente é chamada de bruxa e habita a Mata Atlântica.
Exemplo disso é a mariposa Anphimoea walkeri. Este animal possui espirotromba longa, com cerca de 25 centímetros. Segundo Soares “é um dos polinizadores específicos de flores que têm corolas compridas”. Na parte interior da corola está guardado o néctar. A Anphimoae walkeri desenvolveu a longa tromba na medida em que a flor evoluiu para a forma atual, menos apropriada aos insetos de aparatos bucais pouco desenvolvidos. Uma co-evolução.
Lepidópteros noturnos são predados por pássaros e morcegos. Muitos, então, desenvolveram sistemas defensivos como o mimetismo, assumindo formas semelhantes a animais perigosos ou peçonhentos, que estariam fora do cardápio dos predadores, ou a camuflagem, reproduzindo cores e texturas de superfícies, para ficarem menos visíveis. Um dos mais impressionantes é o da borboleta-coruja (Caligo eurilochus brasiliensis). “Esta borboleta pousada exibe as faces inferiores das asas que têm manchas parecidas com os olhos de uma coruja. Isso amedronta um predador pequeno. No caso de um gavião, entretanto, ele convergirá o ataque para os falsos olhos. A borboleta perderá a porção da asa, mas continuará voando para se reproduzir”, esclarece o especialista.
Assim como as mariposas, os morcegos também são operários da noite. Igualmente estigmatizados. A estranha forma e hábitos alimentares de algumas espécies inspiram julgamentos. Morcegos - por conta do imaginário popular – seriam capazes de ‘provocar ou atrair o mal’. A literatura assim os imortalizou. O escritor inglês Bran Stoker associou a histórica figura do nobre romeno Vlad Teps, o empalador, aos morcegos hematófagos. Deste hibridismo nasceu o terrível conde Drácula. Para os mal informados, todo morcego é vampiro.
Os morcegos são mamíferos voadores, animais de sangue quente, que pertencem à ordem Chiroptera, palavra que quer dizer mãos em forma de asas. Na verdade, a asa de um morcego é formada por 4 de seus 5 dedos, revestidos por uma membrana que se estende do corpo chamada patágio. Não são cegos, mas se guiam principalmente por um sistema auditivo que funciona como radar. Sobre o focinho da maior parte das espécies existe uma estrutura chamada folha nasal, que é parte desse sistema.
Estes animais podem se alimentar de frutas, insetos, pequenos peixes, crustáceos, vertebrados de menor porte como rãs, roedores e aves e néctar. Só algumas – bem poucas – espécies de morcegos se alimentam do sangue de mamíferos. No caso dos nectarívoros, nenhum se alimenta somente de néctar o ano todo, pois não há oferta de flores suficientes. As frutas complementam a dieta. Isso confere a estas espécies o importante papel de polinizadores e disseminadores de florestas. Ao visitar uma determinada flor, o morcego se “suja” de pólen, indo fecundar outra. Quando o alimento é a fruta, as sementes ingeridas são transportadas e, com as fezes, acabam sendo espalhadas por uma grande área.
O Glossophaga soricina é conhecido como morcego-beija-flor. Ele possui coloração parda variando para o claro. Seu porte é pequeno, pesando no máximo 13 gramas. Vive em grupos de 8 a 15 indivíduos que voam ao crepúsculo e à noite. Usa a língua alongada que possui para extrair o néctar das flores, daí o nome beijaflor. Eventualmente pode se alimentar de insetos e frutas.
Esberar explica que a espécie “é urbana e extremamente adaptada, chegando a utilizar os bebedouros de beija-flor deixados à noite” nas residências. Perguntado de como o morador deve agir, o biólogo afirmou: “Se ele quiser manter os morcegos visitando não há o menor problema. Agora, se ele não quiser, antes de anoitecer, é só retirar o bebedouro. Quando o morcego não tem mais alimento vai parar de visitar o local”.
Os nectarívoros são importantes na Botânica. “Morcegos nectarívoros são responsáveis pela polinização de cerca de 500 espécies de plantas conhecidas”, afirma o pesquisador. Ele cita o exemplo de Leptonycteris curasoae: “É um morcego que ocorre em áreas desérticas e poliniza o grande cacto, símbolo do Texas. Outros exemplos de plantas polinizadas por morcegos são o maracujá-da-praia e a banana selvagem”.
O fato de os morcegos visitarem qualquer tipo de flor propiciou o surgimento de plantas especializadas, que atraem os nectarívoros. A mirindiba, por exemplo, dá uma flor que só dura à noite. De manhã, ela morre. É polinizada exclusivamente pelos trabalhadores da noite, mariposas e morcegos nectarívoros. É uma planta de flor pequena, branca e tem um odor de fermentação que os atrai. A maioria das flores visitadas à noite, por sinal, é de cor branca. “Como o morcego não enxerga colorido, a cor não importa”, explica Esberar. Segundo ele, a co-evolução foi vantajosa para as plantas, pois os morcegos têm grande número de representantes. “A polinização só dá certo num lugar onde exista o polinizador adequado, naquele momento em que a flor abrir”.
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